terça-feira, 23 de agosto de 2011

Judeus em Natal: o pioneirismo da família Palatnik



 A história dos judeus na cidade começou a ser escrita no ano de 1912, com a chegada de quatro irmãos e um tio que deixaram a Ucrânia em direção ao Brasil. Antes de se estabelecer na capital Potiguar, essa família passou por algumas experiências em outras cidades. O Rio de Janeiro foi a primeira escala na rota, mas correligionários que viviam em Salvador dissuadiram o primeiro dos jovens, Tobias Palatnik, e o introduziram no ofício a que se dedicavam os judeus que aportavam no Brasil: a mascateação. A experiência vivenciada em Salvador não foi uma das melhores. A topografia da cidade, com suas inúmeras ladeiras, fizeram com que os irmãos desistissem do lugar e resolvessem deixar a capital baiana com destino à cidade do Recife. Nas ruas planas da cidade do Recife os irmãos Palatnik começaram a fazer sua clientela, em grande parte composta por operários fabris. Nesta cidade aprenderam que além do comércio realizado porta a porta, eles podiam comprar no atacado e com exclusividade. A cambraia bordada tornou-se o principal produto para eles, pois os lucros que ela oferecia eram bem maiores do que os dos demais tecidos.

A permanência na cidade do Recife também não demorou muito. Depois de apenas três meses estabelecido na capital Pernambucana e falando o português ainda de forma rudimentar, Tobias Palatnik, o mais velho dos quatros irmãos, resolveu transferir-se para Natal, objetivando assim escapar da concorrência comercial em Recife, que contava naquele período com 80 judeus prestamistas, em sua maioria rapazes solteiros provenientes da Bessarábia, Polônia e Ucrânia, para poder concretizar o objetivo que trouxeram juntos como irmãos, ou seja, o desejo deles era conseguir meios para poder se estabelecer na Palestina com os demais familiares que deixaram a Ucrânia e seguiram para lá, e ali desenvolver uma lavoura (ROZENCHAN, 2000). 

Os planos traçados por esses judeus foram aos poucos assumindo outras configurações. Assim como os outros imigrantes, eles tiveram que superar a depressão causada pelo novo ofício e esquecer o orgulho pessoal. Perceberam que a oportunidade que se apresentava era boa e o lucro era certo, desde que investissem na nova vida e se adaptassem ao país. Na busca por (re)construir suas vidas de maneira digna no novo espaço apresentado, esses irmãos não mediram esforços para se adequar. A primeira grande barreira que necessitava  ser rompida era a língua; por isso, a leitura noturna do jornal em Português, incompreensível, acabou fazendo parte desse aprendizado e encerrava o dia de trabalho que  iniciava às sete da manhã, sustentados apenas por sanduíches de queijo, sardinhas em lata, pão, frutas e guaraná.

Ansioso por conquistar um espaço econômico menos concorrido, Tobias Palatnik não hesitou em mudar de cidade.  A saída do Recife em direção à pequena capital do Rio Grande do Norte ocorreu no ano de 1912. A escolha por Natal, segundo Tobias Palatnik, deveu-se à Divina Providência. Ao vender um chapéu Panamá a um professor em Recife, Tobias olhou para um mapa que estava pendurado na parede da sala, onde se destacava a estrada de ferro que ligava a capital pernambucana às demais cidades. Ele voltou os olhos para o extremo Norte e viu a cidade de Natal, e não se intimidou, pedindo logo informações a respeito dessa cidade. Tobias nunca soube responder o motivo que o levou a mover os olhos em direção à cidade do Natal, a única coisa que ele tinha a certeza é que seu olhar o conduziu para o espaço certo onde ele teria condições de (re)construir a sua vida e a vida de seus familiares. Tobias só não imaginava que ele seria o protagonista e um dos principais mentores da construção da história de uma comunidade judaica singular (ROZENCHAN, 2000).

A escolha de pegar o trem e seguir em direção a Natal foi a melhor decisão que Tobias tomou quando chegou ao Brasil. Natal ainda era uma cidade pequena, que estava começando a passar por transformações. A cidade contava naquele período com 23 mil habitantes e havia apenas 27 famílias estrangeiras. Como tivemos oportunidade de mostrar anteriormente, Natal possuía três linhas de bondes elétricos, uma catedral e um cinema mudo, ou seja, era uma cidade que estava aos poucos desabrochando e vivenciando o início da modernidade tão desejada pela elite local. Tobias Palatnik se deparou com um espaço que estava pronto para ser explorado; por isso, não hesitou em introduzir a venda a prestação na cidade. Percebendo que a oportunidade comercial era bem melhor que a do Recife, devido à concorrência que se encontrava na capital pernambucana, seus irmãos resolveram seguir em direção a Natal e começar ali um novo investimento. Foram os irmãos Palatnik que trouxeram para a cidade uma nova maneira de comercializar. Os produtos eram oferecidos de porta em porta e assim, laços econômicos eram estabelecidos, pois mensalmente os irmãos passavam nas casas dos clientes que adquiriam as mercadorias para receber a parcela do pagamento do produto que havia sido vendido. Esse tipo de procedimento tornava a relação entre comerciante e cliente mais estreita, fazendo com que os anseios de consumos da sociedade local fossem supridos de maneira pessoal.

Assim que Tobias Palatnik chegou a Natal, logo na primeira investida pôde perceber que só no bairro das Rocas, um dos mais modestos da cidade, poderia conquistar 200 clientes. O desejo de trabalhar e de prosperar fez com que seus objetivos fossem alcançados e em menos de seis meses na cidade, os irmãos Palatnik conseguiram conquistar cerca de 1000 clientes.

Jornal "A República" 1924

A prosperidade econômica proporcionou aos irmãos a realização de um sonho: em 1915 os Palatnik puderam adquirir uma fazenda agrícola com uma usina de açúcar, álcool e aguardente. Não demorou muito para que fossem acrescentados aos seus negócios sítios e plantações de laranjas e coqueiros, revelando assim a predisposição que a família tinha para o trabalho agrícola, já que seu avô sempre trabalhou com agricultura.

A tão esperada ligação com o solo ocorreu, mas não demorou muito para que os irmãos deixassem o investimento, pois não estavam preparados para enfrentar os ladrões que roubavam a produção na calada da noite. Resolveram dedicar-se exclusivamente ao comércio, e foi com ele que a família Palatnik escreveu uma história de prosperidade na cidade que até hoje é contada pelos filhos da geração que teve a oportunidade de conviver com eles.

Com a estruturação e o crescimento econômico da família Palatnik em Natal, esses jovens tiveram a oportunidade de ir à Palestina visitar seus pais e suas irmãs algumas vezes. Nessas poucas visitas que fizeram, os mancebos aproveitaram a oportunidade para constituir suas famílias com as jovens judias amigas de suas irmãs ou outras moças que residiam na “Terra Santa”. Os casamentos dos mancebos foram feitos de acordo com a lei e a tradição judaica (WOLFF, 1984).


A sacralização para a formação de uma família pode ser notadamente observada entre esses judeus. A escolha do cônjuge que professasse a mesma fé e que tivesse os mesmos conceitos e valores era um dos elementos essenciais para esses jovens. Manter uma identidade judaica em seus lares era o objetivo dos irmãos Palatnik. A prova disso é que eles foram buscar na Palestina moças que estavam dentro dessa normalização identitária.  A normalização é um dos processos mais sutis através dos quais o poder se manifesta no campo da identidade e da diferença. Mas, o quê isso significa? Normalizar significa eleger uma identidade especifica, no caso aqui observado, uma identidade judaica, como parâmetro em relação às outras identidades, que são avaliadas e hierarquizadas. Mesmo construindo as suas vidas na cidade do Natal, esse novo espaço não poderia oferecer a eles alguns elementos responsáveis pela continuidade de sua identidade.

Os jovens judeus conseguiram se relacionar muito bem com a sociedade local, mas as diferenças identitárias entre eles constituíam uma realidade cuja ponte de ligação, em alguns setores da vida privada judaica, não teria como ser feita; necessitava, portanto, ser diferenciada. O casamento, por exemplo, representa muito bem como essa delimitação de não-envolvimento com o diferente, que foi feita pelos irmãos Palatnik.

Dividir o mundo social entre “nós” e “eles” estava presente em boa parte de suas práticas culturais e religiosas, e nessa divisão podemos observar notadamente o processo de classificação que eles faziam.  Essa classificação pode ser entendida como o ato de significação pelo qual se divide e se ordena o mundo social, e ela foi feita a partir do ponto de vista de sua identidade. Segundo Tomaz Silva, dividir e classificar significa hierarquizar, atribuindo valores diante dessas escolhas.

O casamento seria um instrumento de continuidade de uma identidade judaica, e como estabelecê-lo com moças que tinham práticas culturais tão diferentes das deles?  Para que essa continuidade judaica fosse mantida era necessário atribuir a identidade à normalização, onde todas as características positivas possíveis em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. Segundo Silva (2000), a identidade normal é natural, desejável, única e estabilizadora, e era exatamente isso que eles estavam buscando ao constituírem suas famílias.  

O primeiro a se casar foi o primogênito dos irmãos, Tobias Palatnik, com Olga, no ano de 1920. Dois anos depois, os irmãos Adolfo e José Palatnik casaram com Cipora e Sônia no dia 18 de janeiro de 1922, em um casamento duplo cuja cerimônia e festa ficou marcado na história desses jovens. Os recém-casados voltaram para o Brasil via Marselha na França, em um navio chamado “Formosa”, mas a lua de mel eles decidiram passaram no Rio de Janeiro e só depois seguiram para Natal. A Sra. Sônia chegou a afirmar que nunca irá esquecer a reação e o encantamento que ela teve ao chegar ao Rio de Janeiro, e que as suas primeiras palavras em relação ao Brasil foram: “Que país bonito!”. A capital Potiguar constituiu o espaço que esses judeus acabaram escolhendo para estabelecer as suas famílias, até porque os projetos econômicos que os irmãos vinham realizando na cidade estavam crescendo, proporcionando a eles estabilidade financeira.

Jacob Palatnik seguiu os passos dos outros irmãos casando-se com Dora, uma jovem da Palestina, o que fez aumentar a quantidade de pessoas de origem semita na cidade do Natal. Com o estabelecimento dessas alianças, alguns familiares das moças judias foram atraídos para cidade, gerando assim, uma ramificação de parentesco considerável da família Palatnik.

Com esses casamentos, muitos outros familiares, entre eles primos, irmãos, pais, tios e outros membros, decidiram deixar seus países e foram atraídos para a capital potiguar. Em uma carta escrita por uma judia que nasceu em Natal, a Sra. Ana Mazur Spira, para o casal Frieda e Egon Wolff, Dona Ana Mazur demonstra as ramificações e os parentescos que a família Palatnik chegou a ter na cidade.

Essas ramificações e parentescos foram os elementos principais para que a família Palatnik se destacasse, tornando-se os membros principais para o estabelecimento de uma comunidade judaica na cidade, pois o número de pessoas que gravitavam em torno deles crescia com o passar dos anos através das redes de solidariedades que cada vez mais atraíam os familiares e consequentemente, os familiares dos familiares. Dona Sônia, esposa de José Palatnik, por exemplo, foi responsável por trazer da Palestina um ano depois de sua chegada a Natal, membros da sua família, como afirma Wolff.
           
As redes de solidariedade foram instrumentos importantes para a entrada de outros semitas em Natal. Essa prática de ajuda tornou-se algo constante e comum entre os judeus potiguares. Os primeiros que iam chegando procuravam logo se estabelecer para abrir as portas para os familiares e amigos que ficaram em outros países, e que por motivos de perseguição ou de dificuldades econômicas acabavam tomando a decisão de deixar esses espaços. 

Um dos membros da família Palatnik que vivenciou a experiência de deixar os familiares até poder fixar-se no Brasil foi Brás Palatnik. Quando resolveu imigrar juntamente com seus quatro sobrinhos para o país, teve que deixar na Rússia sua esposa e filhos até poder encontrar um espaço onde pudessem (re)construir as suas vidas. Porém, quando isso aconteceu, ele não pôde trazer sua esposa e seus filhos. A Primeira Guerra Mundial os impediu de viajar, fazendo com que essa família ficasse por mais um tempo separada. O encontro em Natal com sua esposa Rivca e com seus filhos: Augusta, Feiga e Horácio só foi possível com o término da Guerra e fim das convulsões internas pelas quais a Rússia estava enfrentando com a Revolução Comunista. 

Brás, assim como os sobrinhos, teve como destino a cidade do Rio de Janeiro, mas foi em Salvador onde esse judeu viveu e teve a oportunidade de fixar-se montando, por sugestão de outros israelitas da Ucrânia, um restaurante de comida iídiche. Mesmo contando com a presença de israelitas e de outros fregueses que eram convidados a experimentar as iguarias em seu restaurante, o investimento no ramo de alimentação não deu certo, fazendo com esse judeu pensasse em outra atividade que pudesse ser lucrativa. Diante do desafio de novas perspectivas econômicas, Brás resolveu mudar não apenas de rumo, mas de cidade, seguindo para Aracaju onde trabalhou como mascate, mas também não obteve sucesso nessa pequena cidade. Recife se apresentava como um espaço de oportunidade, afinal, a capital pernambucana já havia atraído muitos judeus, muitos dos quais já estavam estruturados como prestamistas; por isso, ele não hesitou e mudou-se para capital pernambucana. Mas sua permanência na cidade foi bastante curta. Brás resolveu juntar-se aos seus quatros sobrinhos que já estavam estabelecidos em Natal, e na capital Potiguar ele teve a oportunidade de crescer e prosperar economicamente.

Com o crescimento econômico, vieram as condições para que outros membros da família pudessem se juntar aos Palatnik. Em 1921 Moisés Kaller, marido de Tova, uma das irmãs dos quatro Palatnik deixou, juntamente com sua esposa, a Palestina e imigrou para Natal. A coletividade judaica aumentaria com a chegada dos sobrinhos de Rivca (Gandelsman[1]) Palatnik, esposa de Brás, que se estabeleceram no mesmo período na capital Potiguar: Isaac, Jaime e Leônidas Gandelsman, e em 1925, um outro sobrinho chamado Tobias Prinzac.

Para aumentar o número de parentes que faziam parte do clã dos Palatnik, mais um sobrinho, Josué Palatnik, da família de Brás Palatnik. Um ano depois da chegada do mancebo, em 1927, seus pais Elias e Raquel, e sua irmã Ester Palatnik, resolveram imigrar e se estabelecer em Natal. Com o passar dos anos, mais famílias eram atraídas por um espaço de segurança e de oportunidade econômica; por isso, o crescimento dessa família tornou-se inevitável, fosse pelo processo de imigração ou pelo crescimento natural, com o nascimento de seus filhos em terras potiguares (WOLFF, 1984)

Os parentes da família Palatnik em Natal não cresceram apenas por causa das redes de solidariedade, com a ajuda e auxílio no processo de imigração, mas por estabelecerem famílias, onde cada filho que nascia aumentava, naturalmente, o número de judeus na capital Potiguar, intensificando a necessidade de uma escola judaica. Na tabela abaixo podemos visualizar o crescimento da população israelita em Natal, o que gerou o aumento de suas práticas como Brit Milá, Bart Mitzvá, entre outras.

TABELA: Parentes da família Palatnik.


NOME DOS PAIS

FILHOS
Samuel e Chemda Blatman
Ziva (20.02.1928)
Carmela (19.11.1931)
Moisés e Tova Kaller
Sofia (17.05.1923)
Nechama (por volta de 1926)
Zev (1927)
Abraham e Sara Lipman
Isaac (31.03.1924)
Bracha (Berta 07.04.1935)
Naum e Hassiah Mazur
Simão (31.03.1924)
Achadam (por volta de 1927)
Ana (30.07.1928)
Adolfo e Cipora Palatnik
Eliachiv (04. 07.1923)
Nechama (09.08.1928)
Jacó e Dora Palatnik
Chimonit (26.07.1922)
Nehemias (1924)
Ruth (por volta de 1926)
José e Sônia Palatnik
Moisés (07.01.1923)
Nechama (29.04.1926)
Tobias e Olga Palatnik
Ester (07.03.1922)
Amidadav (29.06.1924)
Abraham (19.02.1928)
Tobias e Hana Prinzak
Moisés (02.08.1928).
Fonte: (WOLFF, 1984, p.36)

Parte das crianças que nasceram em Natal teve uma característica peculiar. A grande maioria recebeu nomes de origem hebraica, prenomes invulgares, geralmente não encontrados entre as demais crianças judias brasileiras. Podemos encontrar em Natal, por exemplo, nomes como Achadam, Aminadav, Chimonit, Eliachiv, entre outros. Essa característica ocorreu devido ao estreito relacionamento dos judeus natalenses com a Palestina, de onde veio grande parte deles. Os nomes colocados em seus filhos representariam uma ligação deles com seus parentes e com a Terra Santa?  O que se sabe é que a escolha da denominação da geração que nascia em Natal era algo singular e seus nomes, como símbolos, deveriam trazer consigo a informação de quem eram, de onde vieram, apontando para algo real.

Os nomes escolhidos por esses semitas representam claramente uma demarcação identitária, que indicava a condição judaica dos seus filhos em relação às outras crianças da cidade. Segundo Hall (2000), a identidade adquire um sentindo por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais é representada, e a representação atua simbolicamente para classificar o mundo e as nossas relações no seu interior. A escolha de nomes de origem judaica representaria esse sistema simbólico apresentado por Hall, ao fazer que esses nomes soassem de maneira diferenciada nos espaços sociais em Natal e permitindo que os judeus fossem rapidamente identificados através deles. A representação dos nomes judaicos serviria como instrumento de ligação com a família, com a sua origem e o seu espaço.


As crianças judias estariam carregando, através dos nomes, e de algumas práticas culturais, uma identidade que se apresentaria de maneira diferenciada em relação à sociedade local. Esses elementos identitários formariam a primeira base para a sua formação, fazendo com que as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, os fizessem se posicionar posteriormente como sujeitos conscientes de uma identidade judaica.

Luciana Stambonsky

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